quinta-feira, 7 de março de 2013

CENAS METROPOLITANAS


                                                     O Percurso


          Quando pensava em retornar à pequena cidade a distância parecia se dissolver no tempo. Segue errante por ruas de grandes prédios ostentando o poder, sedes de bancos estrangeiros, teatros, bares, semáforos vermelhos para pedestres. Agora está verde. Abriu. Atravessa a rua. Pega um coletivo e segue para o trabalho. De segunda a sexta, há quatro anos o mesmo percurso. Com algumas variações, pouca coisa mudou durante esse tempo.
          Eis mais um operário visionário, atento por onde passa simplesmente vê da janela do carro. Em pensamento juntando imagens de pequenas histórias ocorridas durante essa época em que sempre fez o mesmo trajeto. Pessoas conhecidas que acabou encontrando, incidentes, acidentes, meninos de rua, pedintes, polícia que persegue, ninguém sabe, ninguém viu se é bandido ou mocinho.
           De avenida em avenida, o ônibus segue e deixa o centro luxuoso para penetrar no subúrbio, nas comunidades mais pobres. Um pequeno prédio com letreiros luminosos e cartazes de mulher nua indicam as atrações. É um teatro pornográfico. Passa perto de uma igreja que ocupa um imenso quarteirão, cujo pastor fundador mora em outro país, e quando vem, chega transportado por um helicóptero que paira no heliporto, no teto da igreja, construído especialmente para as vindas de seu ministro supremo, como se este descesse do céu, enquanto embaixo, ao redor do prédio, vê-se espalhada a miséria, entre ambulantes, moradores de rua, lixo, sacos de pipoca pelo chão, palitos de picolé, cobertores sujos, jornais velhos. Entre tudo isso, fiéis nas filas para os ônibus lotados, carentes por uma palavra de conforto, por isso notam nas palavras do ministro, o refúgio.
       A igreja passa, ou seja, o ônibus passa, depois para noutro ponto onde sobe um homem com deficiência auditiva, e começa a distribuir cartões com mensagens para vender aos passageiros por uma quantia simbólica. Pedro fica com um cartão com as seguintes mensagens: "eles não perdem por esperar, o dia do bem virá". O vendedor desce no próximo ponto, agradece ao motorista, deixando-lhe dois cartões de cortesia. 
       Entram agora três jovens com jeito de quem vinha de alguma balada, alegres e chapados, cantarolavam blues da década de cinquenta, a melodia que vem da gaita se junta à voz rouca do cantor que se desdobra para acompanhar o ritmo. Logo depois descem, deixam um pouco da alegria aos sérios senhores indo e vindo de algum  lugar. O homem no banco da frente fala em tom divertido:
      "Enquanto uns estão indo trabalhar, outros vem da zueira."
          " É a vida." Disse o outro ao lado.
       Quando chegam à praça próxima à parada final, policiais armados dão sinal para que o ônibus pare. O coletivo é estacionado junto à calçada. Imediatamente, os policiais ordenam que todos desçam para que sejam abordados. Uma estação do metrô havia sido assaltada (isso foi dito depois por um deles) e por precaução fizeram a revista, pois algum dos assaltantes poderia estar a bordo.
     " Todos os homens desçam!" Disse um dos soldados.
          "Façam fila com as mãos para cima encostados no ônibus!" 
          Revistaram. Nada encontraram. Uma policial subiu e revistou as mulheres, depois todos liberados. Uma senhora sentada ao lado se mostra indignada com o ocorrido, devido a maneira como foi abordada. 
      "Só nos resta deixar que nos abordem? Sem incidentes, sem nada falar?"
        O operário pega o jornal e começa a ler, ficou um pouco chateado por ter sido tirado bruscamente de sua concentração, quando fazia aquilo que mais gosta ao viajar de coletivo: olhar pela janela e ficar olhando as paisagens surgindo adiante. Cantava baixinho canções que pareciam fazer parte de uma trilha sonora para a viagem. O carro para perto da fábrica e os operários descem. Os portões se fecham após a entrada dos funcionários. Instantes depois, o som do apito dispara e mais um dia de trabalho se inicia.
         Lá dentro, pensa sobre o fim de semana.
        "Hoje é sexta, último dia de labuta, vem aí dois dias de folga para andar livre e olhar a cidade, não vou fazer hora extra."
       No final de semana, quis ficar em casa no sábado para por algumas coisas em ordem. Enquanto se organizava ia pensando na vida que levava desde quando passou a trabalhar na fábrica, quatro anos dando o duro, ralando, entre barulho de máquinas, um longo período. Subitamente veio-lhe um pensamento decisivo que lhe tirou da retidão em que estava. Resolveu abandonar o trabalho e ser livre.
         Naquele contexto em que se encontrava não havia modo de melhorar a condição do operário. Sentia-se oprimido, na retaguarda, sem defesa, a maioria dos trabalhadores sem consciência política, a mais-valia, a exploração do homem pelo homem em benefício do acúmulo de capital. Pensou:
          "Não doarei mais meu sangue."
          Não foi mais trabalhar. Ao terceiro dia apareceu e pediu demissão. Estava livre.
          Depois fez a viagem que sempre desejou e parecia ter esquecido. Foi para Cuba cantar e dançar salsa.


                            Jardim Falcão 
               ou A Batalha de 22 de Julho

       Seu Marcolino veio da Paraíba afim de passar alguns dias com seu filho, de quase trinta anos de idade, que vivia há um certo tempo em São Bernardo do Campo, região metropolitana da grande São Paulo que desde os anos cinquenta atraiu milhões de nordestinos, gente que deixou sua terra natal em busca de melhores condições de vida na grande cidade.
         À custa de muito trabalho, o filho de Seu Marcolino comprou aquele terreno que tanto sonhara, para construir sua morada e, enfim, ficar livre do aluguel. Seu pai viera para ajudar no acabamento. Depois da casa pronta, com todos lá dentro morando, netos, nora e o seu filho, uma coisa lhe incomodava: após mais de dois anos de existência do Jardim Falcão, situado em um lugar considerado como área de proteção ambiental, próximo ao manancial do alto Tamanduateí-Billings, em S.B.C., a justiça determina que a vila deve ser desocupada, todos os moradores das centenas de casas deveriam sair. Há algum tempo já se vinha falando nisso, mas agora as pessoas sentiam mais de perto o problema.
             O dia marcado para a desocupação se aproxima.
      O povo se mobilizou contra tal determinação judicial, recebeu o apoio de diversas entidades, políticos, religiosos e pessoas comuns que mesmo não sendo moradores do Jardim Falcão, aderiram em favor das famílias que, com muito esforço, construíram seus lares.
         Na noite anterior ao dia marcado  para a derrubada, moradores ficaram de vigília em frente ao bairro, preparando-se para enfrentar a tropa de choque da polícia. Montaram barricadas, acenderam fogueiras, armaram-se de paus e pedras, tentando fechar as ruas que davam acesso ao lugar.
         Por volta das seis horas do dia 22 de julho de 1998, os primeiros carros de polícia começaram a chegar. Parecia um desfile militar.
          Às sete e trinta, chega a tropa jogando bombas de gás lacrimogêneo para dispersar as pessoas que tentavam barrar a passagem. Numa rua ao lado, havia uma multidão que apenas olhava os acontecimentos e foi dispersada à custa de bombas. Naquele momento, notou-se a primeira pessoa ferida: um jovem de aproximadamente treze anos de idade que acompanhava seus pais. Esse garoto teve um corte na parte interna do pé esquerdo, acima do calcanhar. Foi levado imediatamente ao pronto-socorro.
          A tropa de choque consegue afastar as pessoas em frente à rua que dá acesso ao Jardim Falcão. Ficou um clima de guerra civil com a polícia pronta para evacuar, de qualquer maneira, a área ocupada pelos moradores.
          O grupo que tentava defender a vila por dentro ficou cercado pelos soldados feito cães mandados a serviço do governo. Os policiais foram para o outro lado onde havia outra entrada.
      Gente tentando defender suas casas permaneciam a postos como que acuados pelo fogo de um dragão, a tropa os encurralava, atirava balas de borracha, mais bombas e gás. Alguns saíam feridos nos braços dos companheiros, cortes devido às explosões ou às quedas no corre-corre, fugiam de um lado para outro com medo de serem atingidos.
          A vila ficou sitiada. Moradores e voluntários ainda resistiam  à ofensiva, mas era difícil vencer, armados apenas com pau e pedra. A cada pedra lançada, vinham balas e bombas como resposta. Tiros de fuzil para cima, armas apontadas aos repórteres que faziam a cobertura, contra quem assistia a batalha, com a finalidade de amedrontar para ninguém mais entrar na luta.
          Uma mulher moradora do Falcão transformou-se em símbolo da resistência, ao ficar em cima da laje de sua casa, atirando tijolos contra os homens fardados. Um homem aparece com os punhos cortados, atingido pelos fragmentados de uma bomba. Homens, mulheres, crianças, choravam desesperados ao verem-se invadidos, expulsos como bandidos. Eram trabalhadores que haviam adquirido os lotes a soldo de muito esforço pessoal.
            Há algum tempo vinham sendo avisados que as casas iriam ser derrubadas, mas ainda procuravam manter a esperança de que tal resolução não fosse cumprida, pois a vila situava-se entre outras áreas totalmente urbanizadas, além disso, havia muitas casas construídas, todas em alvenaria, e os lotes foram comprados. Porém, veio a tropa de choque. Armada para desalojar de qualquer jeito os habitantes. Mulheres saíam com crianças no colo, de sacolas nas mãos, retirando, às pressas, seus pertences.           
             Por volta das treze horas, as últimas pessoas resistiam com uma bandeira branca defronte à polícia armada com escudos de proteção, rifles e bombas. Para sair do Jardim Falcão, restava uma ponte estreita sobre um córrego, onde dava para  passar apenas duas fileiras de gente. Alguns corriam ao atravessar a ponte, entre eles, um velho de mãos dadas com uma criança. Enquanto os rendidos precipitavam-se a correr de encontro à única saída, outra bomba foi lançada, o velho correu para o lado sem soltar as mãos do menino, abaixando-se atrás de uma moita, outros caíam no córrego sujo. Subiu uma enorme nuvem de fumaça a encobrir tudo. Ninguém via nada. Expulsão e brutalidade.
            Durante todo o dia a batalha continuou. Mesmo depois de expulsos, moradores contra-atacavam da forma mais possível, mas não deu para mais resistir. Às quinze e trinta, caminhões da Prefeitura estavam retirando os móveis e objetos pessoais daqueles que viam do lado de fora, as moradias esmagadas pelos tratores semelhantes a monstros pré-históricos
         Um dia após o conflito, foi decidido em assembleia popular que seria feita uma caminhada de protesto, até o Paço Municipal, em apoio aos ex-moradores do Jardim Falcão. Depois desse acontecimento, surgiu a seguinte indagação: como ficarão os agredidos que perderam seu teto, que viram o sonho de anos e anos desfazer-se em questão de horas? Essa resposta queremos da parte de quem promoveu tamanha barbaridade em nome da preservação do meio ambiente e não deu importância aos seres humanos que também fazem parte desse ambiente.
            Em meio aos escombros, uma senhora idosa, de cabelos brancos, sentada naquilo que restou, no deserto de tijolos e concreto quebrado. Próximo à senhora, Seu Marcolino, desolado, olhava o filho, a nora e os netos, sem teto, sem ter para onde ir. 



                     Um retirante Abandonado

   Domingo à noite resolveu andar. Andar por aí, descobrir um bote para ingerir líquido estômago adentro. Na calçada, uma pedra, tropeçou, caiu. Desmaiou sem ninguém para acudir. Começou a sonhar. Uma estrada encharcada, a água impedia a passagem. Um tropeiro do outro lado também queria passar, esperou até o sol raiar e ali, com sua tropa montou acampamento.
       Os moradores da vila do lado de cá comercializavam produtos diversos entre aqueles viajantes, desde toalha de banho até bateria de rádio, picolé, uma variedade. Isso acontecia uma vez ou outra quando a água vazava sobre a ponte. Certamente o lucro aumentava para aquele que de uma forma ou de outra vivia do comércio, tempo de fartura, época de guardar mantimentos para possíveis momentos de seca.
      Até que um dia, o governo resolveu aumentar aquela aguada, construindo uma grande barragem, fez com que a região se transformasse em um grande lago que encobriu muita terra, árvores, casas, animais acuados, em nome do combate  à seca. Muitos perderam suas propriedades, não foram indenizados, apareceu gente de mais dinheiro para ocupar as terras na margem da represa. Os repentistas cantavam dizendo que o mundo estava se enchendo de água, o mar a cada dia engolia um pedaço da praia.
      A humanidade caminha e tropeça. Talvez estejamos em tal época onde o homem precisa se levantar, bater poeira e recompor-se perante o universo. Lá se vai o violeiro levando consigo histórias, em cantigas da Idade Média dentro de um contexto modernizante, em um país contraditório a lutar para sair do atraso colonial e entrar pela porta da frente na contemporaneidade.
        Como a represa que alaga querem encobrir culturas e lendas. Tempos novos, novos moradores em um lugar de conflito entre o invadido e o invasor, o invadido é expulso e oprimido, para tornar-se depois um despossuído, um sem terra. O repentista entoava seu canto: "que seja justa a divisão, quebrem as regras desse mundo cão. De Anchieta a Lampião, aos dias de hoje, ó cidadão."
       Igual um vídeo-clip, a cena era surreal. Um homem que se levanta, que se refaz após o tombo. Em sua história ia pensando, na madrugada da capital. Aproxima-se do viaduto em que mais uma vez iria pernoitar. De bar em bar, ruas desertas, compridas e enladeiradas. Festejos aos jogos olímpicos, herança de tempos coloniais, gente que ainda falava da escravidão como sintoma da maldição de Cam. Hora de acordar. o dia amanheceu e não se deve dormir na rua em plena luz do dia.
     Hora de queimar a lata. Tem macarronada. O macarrão está pronto, no jeito de colocar o molho. Eis que surge de repente, uns homens de preto, dizendo serem fiscais da municipalidade. Levaram o almoço quando ia ser servido, o companheiro que preparava o molho de tomate se estatalava no chão de tanta fome, chorava sem lágrimas, enquanto o outro o ajudava a sentar-se e mais outro falava:
         "Nós não temos para  onde ir, doutor! Jogaram fora nossa comida, era o que tinha para hoje."
        Falava isso de frente à câmera de televisão para à noite passar no jornal nacional para o povo ver. A discussão política não deve  ficar apenas no plenário ou em palanques, deve partir para as ruas. Pobre País onde falar de igualdade de direitos é utopia. Até quando suportar tanta usura, tanto individualismo, tanta covardia.
      O retirante perdeu sua terra e agora aumenta o número de indigentes na grande cidade. No sonho percebe que tem direito à fatia do bolo, embora sinta desânimo diante daqueles que desviam os olhos da miséria e dizem que Deus fez o mundo assim, com ricos e pobres. Perdeu-se na imensidão da cidade, nos labirintos tortuosos, não se sabe em qual viaduto está morando, se ainda sonha com a terra distante.
        Em cada mendigo que vejo na rua, tento enxergar aquele que um dia desapareceu. Espero que o retirante não tenha perdido a esperança e esteja lutando para que dias melhores virão.  
            
       

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

FLORES NO QUINTAL

FLORES NO QUINTAL

O TRABALHO DIGNIFICA, IGUALA...
O HOMEM, ESSA PLANTA ANDANTE
NESSE JARDIM DE CANTEIROS DIVERSOS
E CALOR, POR VEZES, CAUSTICANTE,

A COMUNICAÇÃO, O INCONSCIENTE,
NA DISCRIMINAÇÃO E NO ABRAÇO,
ENTRE QUEM VENDE E COMPRA,
NESSE  MEU CAMINHO QUE TRAÇO.

SE ESTÃO TODOS PERDIDOS,
O MELHOR É SE ENCONTRAR,
POIS A TERRA É PEQUENA,
NÃO HÁ PORQUE DESESPERAR.

OS ERROS VÃO PARA QUEM CORRIGE,
O JARDINEIRO CORTA A ERVA-DANINHA,
OS SONHOS FICAM PARA O SONO,
O ABAIXAR DE CABEÇA AOS SÚDITOS DA RAINHA.

DENTRO DO CASTELO ESCONDIDO, O TESOURO
CÁ DE FORA IMAGINADO, REENCONTRADO,
A DEPENDER DE CADA IMAGINAR,
PARA ACHAR NÃO PRECISA SER LETRADO.

O MEDO DO FOGO, O MEDO DA ÁGUA,
VEM DE CADA PÓLO DIFERENTE,
SE TENS PRESSA EM FANTASIAR,
JUNTE-OS, QUE VAI UNIR TODA GENTE.

OS ROSTOS SE REPETEM  COMO PALAVRAS
NAS BOCAS DOS NOVOS REPENTISTAS
VINDOS DE CABROBÓ, EM BUSCA DE IDEIAS,
NA CABEÇA DE OUTROS ARTISTAS,

A FOME TAMBÉM QUEIMA POR DENTRO,
TORNANDO DIFÍCIL LIDAR COM ELA,
AO VER DE PERTO TANTA COMIDA:
DOCES, PÃES, BEBIDA E FRUTA AMARELA!

O ARTESÃO PRODUZ OUTRA ARTE,
UMA SEMENTE BROTA NO CHÃO,
A OBRA ESPIRITUAL DO ATOR
QUE PASSA DE MÃO EM MÃO,

A SATISFAÇÃO SE APRESENTA
EM NOSSOS LÁBIOS, QUEM DERA,
QUANDO OLHO DA JANELA.
QUE BELEZA! É PRIMAVERA.



FUTURAMENTE

O AMANHÃ NÃO EXISTE,
O QUE SOMOS ESTÁ AQUI,
FELIZ É QUEM PERSISTE,
SE NÃO EXISTE , VAI EXISTIR.

BOM É TER OPÇÕES
PARA SUAS AÇÕES,
O QUE SERÁ QUE VEM?
QUE SEJA DO BEM.


PENSANTES

DESSE CANTO INFINITO
SOMOS UM PEDAÇO,
SEMPRE HÁ ESPAÇO,
HÁ QUEM OUVE O GRITO.

CANTAR NO DESERTO,
SENTIR O VENTO, O MAR,
O BRILHO ESTÁ NO AR,
CERTO OU INCERTO.

UNIR CADA PENSAMENTO
PARA  ENCONTRAR A PAZ,
TORNAR FELIZ O MOMENTO.

TODO SOM É PARA OUVIR,
DE CORPO ABERTO,
ENTRAR É SINAL DE SAIR.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O Velho Filósofo

                                  O Velho Filósofo

       Este conto, se é que podemos chamar de conto, se constitui apenas em um motivo para filosofar, mostrar poesias ou ideias. As próprias personagens principais, o velho filósofo e o jovem filósofo sugerem isso. Outras personagens aparecem com o decorrer dos fatos, como a cantora, entre aqueles que cantam e dialogam ao redor da fogueira. O único que é referido pelo nome, é o poeta Ramallo Ortiz.

         Entretanto, o que se notará nas páginas seguintes é, simplesmente, a grande aventura da existência, de um homem em busca do saber. Nessa história, as situações são criadas com a intenção de dar continuidade aos encontros  entre os dois filósofos, o velho e o novo.

           A cada tempo, o jovem aprende e o velho, já distanciado de certas inquietações, embora ciente de que também foi como aquele jovem, deixa-o à vontade para que descubra por si, certas verdades sobre a vida. Uma busca que parece se transformar numa eterna aventura para o homem.

                         

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          Mesmo sabendo que nunca seríamos nada daquilo que pensávamos , o velho filósofo comportava-se como se nada soubesse, sempre com um olhar de compreensão e inteligência. Mesmo sabendo que tudo é semelhante a um sonho que se acaba para esperar que adormeçamos outra vez, acreditávamos na vida surgindo a cada dia diante dos nossos olhos. Cidades invisíveis, imaginadas em vários formatos, com diferentes habitantes em suas distintas culturas, roupas, comidas e antigas tradições.

        "Os olhos dele parados em frente a mim, meus  olhos nos dele mergulhados vendo a vida a correr. Com o passar do tempo, tudo parece tão distante, e ainda parece que o tempo passou e ficaram os sonhos, imagens de um passado ou de algo que parece futuro. Passado e futuro a nossa frente. Um velho de feições rejuvenescidas,  de movimentos surpreendentes, astúcia de um garoto, um vidente a acompanhar-me durante toda a vida, através de uma bola de cristal."

        Quando se indispôs contra o mundo, devido à falta de oportunidades que parecia nos cercar, o velho com um sorriso eternamente estampado, disse uma frase marcante:

   "Mais vale a ignorância total que um conhecimento esvaziado do seu princípio fundamental."

      Então o jovem passou a se concentrar  na origem das coisas ou das supostas coisas, interessando-se pelas ciência,  pelo misticismo, pela fé. Percebeu que a origem das coisas estava muito mais além do que pensava. Olhou-se no espelho, viu alguém igual ao velho, ouvinte atencioso e argumentador implacável, sempre mostrando um ponto adiante. Pensou.

       "Se algum dia, encontrar o velho por aí, vai parecer-se com o jovem diante do espelho." 

 

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         Certo dia, depois de tanto ouvir o filósofo e estar agradecido por tudo feito, o rapaz chegou para mais perto dele a fim de dizer algo.

         "Quando partires, elevarei teu nome, farei de ti símbolo de novos adeptos para que tuas palavras sejam perpetuadas de geração em geração."

        "Por favor, meu jovem, cuidado para não me crucificar. Quanto às palavras, quando as usar não serão mais minhas, serão tuas."

        Ouvindo isso, pensou no quanto o velho ainda tinha para ensinar e percebeu a lógica contida em tais  palavras. Enquanto pensava em si, refletiu naquilo que o velho filósofo quis dizer: quando tu partires... e o velho poderia partir bem depois dele.

        Depois não veio mais nenhum pensamento. Seus olhos depararam novamente com os olhos do velho, manso, tinha uma espécie de sorriso contido e via o jovem como se adivinhasse seu pensamento. Calou-se diante de tal suavidade.

          Ambos permaneceram calados.

 

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         Um  fósforo foi aceso para queimar incenso que enquanto queimava, ficaram a debater sobre a harmonia universal. De como cada ser tem importância fundamental nos acontecimentos a todo instante. E o velho dizia.

         "Somos como ovelhas desgarradas, longe do seu pastor, separadas umas das outras sem noção de onde fica o ponto exato em que se deu a separação. Alguns  podem estar mais próximos, outros mais distantes sabem até aonde ir e outros, nem sabem onde estão."

      É como se estivéssemos construindo a grande muralha da China. Dizem que essa construção é tão grande em extensão que, para construí-la, colocaram  grupos de pessoas em cada ponto diferente, do começo ao fim da muralha. Trabalhadores de todas as partes do país construíam quinhentos metros em cada ponto escolhido. Quando terminava uma parte, iam recomeçar em outra e assim, continuar a obra sem a ideia do seu tamanho.

       Operários reversavam-se de local para local. Muitos passaram a maior parte de suas vidas trabalhando nessa construção, que durou mais de duzentos anos, até que finalmente, todos os pontos se encontraram para formar a grande muralha.

          "Por que essa construção não foi realizada de um ponto inicial até o final com os operários formando uma só equipe?"

       "A muralha da China é enorme. Se fosse feita do jeito que você fala, corria-se o risco de os operários se darem conta do tamanho da obra, podendo ocorrer um desânimo e assim parar pela metade. Da forma que foi construída, a muralha ia surgindo simultaneamente em cada província e o entusiasmo também tornava-se simultâneo. "  

    De tal modo, os chineses usaram a inteligência e fizeram o que parecia impossível.

       "Que belo exemplo para explicar a harmonia das coisas." Disse o novo ao velho.

    O velho sorriu como se aprovasse a sua compreensão, segurou depois um espelho com as duas mãos e disse:

       "É como se eu jogasse no chão esse espelho que se partisse em mil pedaços para juntá-los. Se você segurar apenas um fragmento do espelho a uma distância de dez centímetros de seu nariz, não vai dar para ver seu rosto por inteiro, a não ser que os pedaços sejam juntados como um quebra-cabeças."

         Nesse momento, a fumaça do incenso toma conta da pequena sala. O jovem se levanta do  tapete em que estava sentado e resolve colocar um disco de Vivaldi na vitrola. Enquanto ouviam o concerto para violino em fá maior, o aroma musk espalhava-se por toda a casa..

 

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       Resolveu andar, saiu de casa e foi para a floresta que havia perto da cidade. Atravessou serras, embrenhou-se no mato, aprofundou-se indo ao fundo da alma, em busca de algo que o fizesse sentir-se em contacto com o mundo e chegou ao ponto  de ter a sensação de flutuar sozinho sobre a terra. Em sonhos distantes vagou e tudo ficou vago, perdeu a esperança que tinha, perdeu a fé, mas nem  precisava ter fé. Era simplesmente nada.

          Depois de longa caminhada, parou perto de um riacho na beira do caminho. Pensou na origem do homem, lembrou de  livros que leu, um conjunto de coisas significantes e tradutoras de um mundo projetado em sua mente. Veio  à memória, uma história que o velho filósofo lhe contara. Uma fábula extraída de um livro chamado Servidão Humana:

            "Um rei oriental desejando conhecer a história do homem, recebeu de um sábio quinhentos volumes; atarefado com os assuntos do governo, solicitou-lhes que os condenasse. Depois de vinte  anos o sábio voltou e agora a sua história não era mais que cinquenta volumes, mas o rei, demasiado velho, para ler tantas páginas, pediu que abreviasse mais uma vez a história. Tornaram a passar mais vinte anos e o sábio, velho e encanecido, trouxe um livro no qual continha a ciência que o rei procurava. Mas o rei estava morrendo e não lhe sobraria tempo para ler nem aquele volume. O sábio, então, narrou-lhe uma história do homem numa simples reta: nasceu, sofreu e  morreu."

 

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          A noite está chegando, o jovem também sabe que um novo dia vem  vindo e espera comovido, por esse dia que trará alegria para os tristes e sofredores. Quando chegará tal dia?

           Começou então a pensar que Deus existe. Não pensou em um Deus que ainda virá, nem que está distante no  céu ou de costas para a terra, mas sim, em um Deus do aqui e agora, dentro e fora dele, e tudo parte Dele, Ele em tudo e que tudo retorna a ele. 

         "Se Deus é o todo, sou parte do Todo." Assim pensou.

            Supomos que um pão representa o todo: uma migalha do pão é também o pão, mesmo que a migalha esteja no  chão. Embora não quisesse fazer parte de nenhuma religião, penetrou nesse campo místico, em busca de respostas para tantas perguntas que absorviam seu cérebro.

 

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       Depois daquela fase da metafísica, debandou para outros lados. Ouvia uma música do compositor Renato Russo que definia essa etapa de sua vida: "ainda estou confuso, só que agora é diferente, tô tão tranquilo e tão contente."

     Em sua frente, a realidade aparece mais clara, a miséria nas ruas, a fome, o homem que explora o homem, coisas que há tempos lhe traziam angústia e revolta. Só que dessa vez olhava com uma nova esperança.

         Novamente, mesmo sabendo o quanto é difícil ver todos em paz, alimenta que a solução está em cada consciência, mas é tão difícil  cada um se enxergar. Mesmo assim, segue adiante acreditando na paz, na harmonia entre livres em uma outra era.

     Agora pensa em socialismo, comunismo, anarquismo ou seja lá o que for solidariedade, criou dentro de si um país e se dentro dele ainda  havia resquícios de inveja e ódio entre os pares, decidiu aplacá-los e exterminá-los com toda sua energia.

 

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          Algumas pessoas unidas em torno de uma ideia que caiu feito semente no meio daquele povo. Um espaço para agrupar aqueles que estivessem dispostos a viver em comunidade. Para que os camponeses tivessem acesso à terra e os moradores abandonados da cidade onde ficar. O velho filósofo disse certa vez que muitos problemas relacionados à mente humana moderna decorrem de questões econômicas ou financeiras. São pessoas com dor de cabeça por estar sem dinheiro, sem casa, sem emprego, sem terra.

       Assim caminham os homens. Que bom se fôssemos à cidade por querermos conhecê-la ou por qualquer outra opção que não fosse por ser refugiado ou retirante.

        Existem pessoas que veem outras coisas as quais outras não estão vendo; que querem ajudar outros a enxergar, pessoas de várias partes do planeta. Pessoas, pessoas e pessoas.

       "Essa comunidade é para que todos tenham boas relações entre si, haverá uma equipe escolhida para mediar os acordos.

    Que venham aqueles que queiram uma casinha  no campo, cachoeiras, horta no quintal, Internet, rios de leite e montanhas de cuscuz." 

 

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     Em um grande encontro de pensadores, grandes cabeças se encontram com a finalidade de discutir sobre a condição humana no planeta Terra. Naturalmente,  o velho filósofo estará presente.

     Essa  reunião aconteceu numa fazenda. Várias barracas de acampamento e uma boa infraestrutura para atender aos visitantes. Ali uma ideia começaria a ser praticada. Em uma pracinha improvisada, uma tribuna, um palco, uma mulher se destacava tocando violão e a voz soprano indo direto ao coração. O seu olhar mirava alternadamente, os olhos atentos e tranquilos daqueles que a olhavam e a ouviam.

          Perto do curral, um grupo conversava de forma alegre, um som doce de flauta percorria o ar, o cheiro dos bichos misturava-se ao aroma da fumaça dos charutos cubanos, fumo da Noruega, entre outras "coisitas" mais. Dali a uns trinta quilômetros há uma estação ferroviária, onde todos os dias estaciona um trem, para entrada e saída de passageiros. Nesse dia, a velha estação, situada sozinha no meio do cerrado, teve o seu dia mais movimentado.

          O povoado que fica a dois quilômetros da velha estação, foi apanhado de surpresa ao chegarem os primeiros participantes do evento, mas os habitantes logo se adaptaram ao comportamento daquelas pessoas que vieram de longe para se unirem numa fazenda daquela região.

 

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           Ao pé da fogueira estavam sentados vinte pessoas cantando e conversando. A mulher do violão, acompanhada por outros músicos, cantava uma velha canção de Bob Dylan: " quantos caminhos um homem deve andar para que seja aceito como um homem,  quantos mares uma gaivota irá sugar para poder descansar na areia". O refrão diz que a resposta está no vento, e o vento soprava os cabelos, os ouvidos, soprava a brasa da fogueira, aumentava as  labaredas que clareava a noite escura e aquecia corpos e mentes e corações. Outros dançavam, batiam palmas ou ouviam.

       De repente, o poeta Ramallo Ortiz, um latino americano, só não se sabe de qual país, declama um poema com fundo musical: 

     O Caminho da Liberdade 

Pedregoso, cheio de espinho,                          Terás que buscar habilidade                                  ao chocar-se com a realidade                                 e sentir a falta de carinho.

Ao buscar sua própria história,                               a qualquer hora pode chegar a paz,                      e o homem caído se  levanta e refaz                      o sonho perdido em sua memória.

O sofrimento parece eterno                                    se dentro da imaginação                                         estais no centro do inferno,                                   

porém, o sentimento da pulsação                         fará-te encontrar a realidade                         perdida no  caminho da solidão.

 

       Palmas, sons de instrumentos musicais, vozes, todos juntos e o clarão daquela noite, até surgir a luz do sol, símbolo das mentes clareadas. 

 

           ***********************

 

      À tarde, o velho filósofo iria proferir o último discurso. Todos aguardavam aquele momento, especialmente o jovem, que não o via há algum tempo. Eis que chega a tarde e, com ela, o velho, entre todos saudado, indo direto à tribuna, contemplou a todos e começou a falar algo que lembrava Nietzche ou o próprio Zaratustra.

    "Estou aqui além do bem e do mal a falar sobre  a verdade e a mentira, temas do meu discurso.

     Seria a verdade uma mentira? Não  existiria a verdade se não fosse a mentira?  Será que a palavra é  a forma perfeita de mostrar a verdade?  

   A palavra é um conceito que serve para representar as coisas, é uma criação do intelecto humano. Mas antes do homem criá-la e antes do homem, o que existia e o que não existia?   

    Como podemos afirmar algo que não vimos apenas pela palavra?

      Houve o tempo em  que o homem não existia e poderá chegar o tempo em que não existirá. A verdade pode ser uma convenção para criar as leis, através de um tratado de paz que pelo menos deseje o fim de uma guerra de todos contra todos. De acordo com  essa leis, agora tudo é verdade ou mentira.

       A linguagem utiliza-se da palavra para fazer o irreal parecer real. Nomes são invertidos com o passar do tempo. Para os homens  não importa serem enganados, o que  importa é não serem prejudicados pelo engano.

      Mas nós queremos os resultados agradáveis da verdade que conserva a vida. serão aquelas convenções da verdade produtos do conhecimento e do sentido puro? Os significados e as coisas se coincidem?

     Pode o homem atribuir  ao egoísmo e à cobiça um maior valor para a vida? Reconhecer a mentira como condição de vida pode ser perigoso para enfrentar aquilo que acostumamos a valorizar."

      Assim falou zaratustra, assim falou o velho filósofo.

 

                   **********************

 

         Uns três dias depois, quase todos haviam deixado a fazenda. Um novo encontro foi marcado para o próximo ano.

     Sentados em uma pedra, junto a uma pequena lagoa, o jovem e o velho estavam a contemplar o nascer  do sol. Mais adiante, a pouco mais de cem metros, do outro lado da lagoa, carneiros e cabras  pastavam solenes. De cá da pedra, ouvíamos o som dos gangolos pendurados nos pescoços daqueles animais, instrumentos cuja finalidade para os pastores é encontrar as ovelhas perdidas através do som. Tudo aquilo junto com o canto dos pássaros formava  uma orquestra vibrante a encher de paz aqueles  espíritos.

          O velho filósofo perguntou:

          "E  agora, para onde vais?"

        "Novamente para a floresta. Construirei uma cabana junto às árvores, cercado de mato e bicho. Chegar perto da conclusão de como tudo começou, do primitivo aos dias de hoje."

         "Será que é a melhor  maneira? Outros já o fizeram."

       "Farei o que meu coração pedir que eu faça. Há tempos senti a desigualdade entre as pessoas. Um dia todos foram iguais, numa época remota, quando eram selvagens e não haviam inventado o estado, as leis, nem mesmo a palavra."

       "Vais estar aqui no próximo encontro?"

      "Sim. Falarei sobre o que descobrir, mesmo sabendo que não há nada de novo."

        "Estaremos à espera."

 

                       *********************


       Dois dias após, partiu de mochila nas costas. O velho filósofo ficaria a esperar, levando uma vida de pastor de ovelhas, preferia ficar ali, num meio termo, uma casinha no campo com acesso aos meios de comunicação e transporte para a cidade.

    O jovem atravessou rios, estradas abandonadas, vales, serras. Pensou no velho em que se transformava e nos jovens das próximas gerações que ainda veria discutindo sobre o destino do universo.

       Resolveu então parar no ponto onde chegou e quem sabe um dia retornar com as  respostas.        

                     
        


                                       

                                                                

                              

                 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

As Aventuras De Um Cão Chamado Pitôco

                                  As Aventuras De Um Cão Chamado Pitôco   

                                        - Construído a partir de conversas com                                                    Paulo Gabirú, cantador do Rio São Francisco

        Era um cãozinho que se chamava Pitôco, um balaio, ajudante de  vaqueiro. Pegava o touro de tal forma que impressionava a todos que o assistiam. Agarrava o boi pela argola que ficava nas ventas, até fazer o animal se deitar. Só largava quando seu dono chegava e dizia para soltá-lo. Estimado pelo vaqueiro, desde cedo aprendeu as artes no manejo com a boiada.    
        Pitôco adquiriu prestígio, portanto, sempre apareceu quem estivesse interessado em comprá-lo, mas o vaqueiro  jamais se desfez do seu pequeno grande companheiro, nunca aceitou qualquer proposta. Por sua vez, o pequeno cão nunca abandonou seu dono, seu melhor amigo. Levava uma vida privilegiada, não precisava entrar em disputas com os outros cães que esperavam os ossos jogados pelo açougueiro, nem precisava viver entre os cães selvagens que rondavam as proximidades.
        Havia uma matilha desses cães que se tornaram selvagens, deixados por  seus donos, após serem atingidos por uma barragem construída em suas terras. Os pobres sertanejos que perderam suas terras foram para outras bandas, buscar meios de sobrevivência, deixando para trás os pertences, inclusive, os cães, que tiveram que aprender a sobreviver sem os donos, e como lobos rondavam as povoações.
         Pitôco sempre fora bem tratado, mas um dia, uma tragédia transformou sua vida: O vaqueiro faleceu pisoteado por um touro bravo. O cão perdeu seu dono. Durante o velório, permaneceu todo  o tempo junto ao  morto. Algumas pessoas se agachavam e faziam-lhe afagos. Quando chegou o momento do sepulto, lá se foi Pitôco atrás do caixão. Não tinha mais dono, também não procurou quem o adotasse, já teria experiência o bastante para viver sozinho.
        Por ser conhecido e respeitado, logo fez amizade entre os cães que viviam dos ossos do fundo do açougue. Saía em busca do alimento, mas sempre retornava à cova do seu falecido dono e, ali permanecia, passava a noite e dormia. Ao amanhecer ia em busca do osso de cada dia, entre pedaços disputados por enormes dentes de cães  ferozes e esfomeados.
        O herói dessa história mantinha-se sempre passivo, procurava não entrar nessas  batalhas com aqueles que, desde cedo, conheciam aquela forma de vida. Divertia-se afastado, ao ver a matilha em alvoroço. Sempre sobrava seu pedaço. Pitôco ainda era lembrado por aqueles que chegaram a vê-lo em seus dias de glória, quando acompanhava seu dono, quando aboiava ou participava das vaquejadas. Sempre aparecia quem quisesse ficar com ele, principalmente, quando o viam solitário.
       Passa o tempo. Todos se acostumaram com aquele cãozinho que ficava dias e noites, junto à cova do vaqueiro, onde fizeram um jazigo. Quem por  ali passava, fazia o sinal da cruz e acenava para o cão, alguns mais velhos se gabavam por terem um certo dia, presenciado alguma proeza daquele vaqueiro e seu fiel companheiro.
       Em frente do cemitério à beira da estrada, sempre passava um carro-pipa que transportava água para os moradores mais distantes da represa. Todos os dias, Pitôco olhava o caminhão e, latindo, atendia aos acenos do motorista que parava e lhe dava água.        
          Dessa vez não era  o carro da água, era um grupo de saltimbancos que por ali passava. Pitôco levantou-se, esticou as orelhas, abanou a cauda. Abaixava e levantava a cabeça lentamente. Os artistas do circo imediatamente se encantaram com Pitôco a fazer piruetas junto ao carro, como se pedisse para ir com eles. Assim, nosso pequeno herói redescobriu o que gostava de fazer  e se foi  para continuar a ser artista na vida.
       Quem hoje passa por ali, em frente ao cemitério, sempre faz uma prece ao vaqueiro e lembra daquele intrépido cãozinho chamado Pitôco.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

bateu com a cabeça no concreto

POLÍTIKA

LÍ TI KA ME LE KA PO
TI KA ME LE KA PO LÍ
KA ME LE KA PO LÍ TI
ME LE KA PO LÍ TI KA
LE KA PO LÍ TI KA ME
KA PO LÍ TI KA ME LE
PO LÍ TI KA ME LE KA



MÁKINA DO TEMPO

KI NA DO TEM PO MÁ
NA DO TEM PO MÁ KI
DO TEM PO MÁ KI NA
TEM PO MA KI NA DO
PO MA KI NA DO TEM
MÁ KI NA DO TEM PO




 

terça-feira, 10 de abril de 2012

Poesias de Ramallo Ortiz

Homenagem Aos Poetas Mortos

Às vezes penso: a morte é bem vinda!
Por desespero  jamais,
nem por pensar que o mundo
não tem jeito, pelo contrário,
os loucos podem mudá-lo.

Perdidos entre uma geração
e outra que se foi, não tivemos
o prazer de conhecer em vida
nossos ídolos, mas os que vivem
podemos conhecer, tê-los
como amigos.

Os malditos são os bons!
Viva Raul Seixas!
Viva Sérgio Sampaio!
Se foram porque
a morte é certa. 



Nesse Mundo

Nesse mundo onde muitos
são obrigados a engolir sapo
parece tudo sempre na mesma:
voltar ao passado e sentar
para esperar um futuro
que os faça crer na beleza da vida.
  
Porque sorrir nem sempre dar mais,
pois os dentes não são tão belos
como os do artista do comercial.



Na Academia

Às vezes na academia é raridade
encontrar quem realmente lê
uma obra antes de comentá-la,
antes de ler o artigo 
com o comentário;

basta ler o que outro já escreveu
sobre a obra ou então é melhor
ler a orelha e sair falando
parecendo intelectual.

Falar com autoridade
só se for graduado,
é preciso mestrado,
e ainda, vale mais
o doutorado, senão
ninguém dar ouvidos. 



A Fundo

Quem foi a fundo na loucura
para nunca mais voltar
foi como se tivesse voltado
para mostrar o caminho,

foi como se tivesse voltado,
não obrigado, mas para poder
ficar de fora e por dentro,
o louco consciente, alegre

por estar de fora, não quer
ficar mais ali, dentro dos muros
que aprisionam mentes 
que nunca saíram de si.  


Dionísio Na Caatinga
                                                     Inspiração a partir de um quadro
                                        do pintor Cipriano Sousa

Por onde Dionísio passa,
revira tudo, muito vinho;
na caatinga é cachaça
ou jurubeba, as mulheres
tiram os potes da cabeça
e os jogam no chão, para
seguir o deus do vinho
e da loucura, dos loucos
para viver e serem salvos.

Os maridos enlouquecem,
Padre Cícero não dá jeito,
Lampião nem passa perto,
Luiz Gonzaga toca forró,
é uma orgia só. Apolo desiste.
Menino! Vai lá em Cabrobó
que a seca acabou, a festa
não tem tempo de parar
e a cachaça ele multiplicou.  


Contra-cultura 

Prejudicam semelhantes
Através da mentira,
Em versos sobre eles
Faço jorrar minha ira.

Os oprimidos desenvolvem
A hostilidade contra a civilização
Que os mesmos ostentam
E geram o desejo de destruição.

Em cada menino podemos ver
O processo de transformação
Numa cultura que aumenta
E alimenta a insatisfação,

Cresce o número de neuróticos
Cansados da mais-valia,
Cresce a vontade de trasnformar
E a ânsia de rebeldia.

Onde estão o patrimônio espiritual
E os meios de estrutura
Que possam reconciliar
O homem com a cultura?